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Ontem

 Eu ontem andei e andei  que nem um tonto perdido na rua vagueando  nas sombras da noite vazia. Procurei abrigo nos candeeiros  avulsos no meio da avenida. Perdi-me,  quantas vezes  havia para me perder!  Molhado , na chuva de pensamentos  fugidos de uma maré inteira de pesadelo.  Assustado no ziguezague do vento! Caído, na calçada pérfida e fria. Nauseabunda  de cheiros e alma. Eu ontem andei o quanto pude andar, mas nem a lua e nem o sol quando nasceu,  me viu. Ali ao lado, Aqui tão perto!

As lágrimas

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 As lágrimas... Intermitência de sorrisos disfarçados da alma. Jorram abundantemente  de olhares escondidos  no tempo... Caiem que nem cascatas das rochas frias  ondem jazem planos  e sonhos. Ouvem- se, onde lá longe percorríamos a pé aquele caminho de utopia perdida. As lágrimas equilíbrio de corpo e mente distinguidas por quem nos toca e nos olha de perto... Que caiem como a chuva  lá fora ou a areia  na ampulheta... Que fazem o tempo render E os medos ceder... Que vão embora,  mas um dia por certo,  voltam!

Às mãos que se tocam através dos vidros bassos

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 Às mãos que se tocam através dos vidros bassos de um comboio prestes a partir.  Frias, vazias de qualquer esperança. Tocam o rosto, afagam os cabelos antes do doloroso adeus que esperam não ser para sempre.                                                                                                                                                                              Os sonhos,  orfãos de alegria, ficam perdidos no meio do arfar quente no meio do gelo e da neve.  Até que os carris estremecem e o vento toca toda a gente para trás....

O Peito rasgou-se como uma folha de papel!

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Morava em São Bento... De manhã o telefone tocou e acordei sobressaltado. A luta que tinha durado tanto tempo havia terminado. Do outro lado palavras trémulas anunciavam o que senti que tinha acontecido assim que o velhinho Nokia começou a tocar... Meti a cara na almofada e chorei desalmadamente. Sentia o peito a rasgar-se ao meio como uma folha de papel. Que dor era esta que me devorava como nunca antes? Ao fim de 30 minutos lá arranjei coragem para tomar um duche rápido, secar-me como consegui, meter num saco meia dúzia de coisas e sair. Tinha pela frente a viagem mais longa da minha vida. Durante o percurso na estrada, só me vinham as memórias de uma infância incrível, no sítio mais especial que já conheci e com a mão do meu avô a pegar na minha mão. Por fim cheguei. Uma nuvem pairava sobre a aldeia. Durante dois dias o céu chorou copiosamente sem parar. Eu, chorei até à última despedida. Até já não ter forças e não ter mais lágrimas.

Faz tempo!

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Faz tempo que não percorro as tuas pedras certas e frias. Tempo que dói a cada avanço do relógio na alma de quem ali pertence desde sempre. Faz tempo que ali corri descalço, de chinelos ou sapatilhas sempre à frente de uma felicidade contagiante. Faz tempo que estivemos todos. Como é que desde ontem avançamos tanto? Como é que ontem éramos tantos e agora somos tão poucos...Os outros desapareceram, foram andando para onde havemos de ir todos... Passado tanto tempo...vou voltar a pisar aquele chão, vou voltar a respirar aquele ar e quem sabe consiga, ainda que por instantes, ir buscar todos outra vez...!

O outono de pessoas

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Houve um dia em que as cigarras se calaram. Em que os restolhos dourados deixaram de ser tocados pelo orvalho da madrugada. Houve um dia em que ouvir os cães a  ladrar à alcateia que circundava a aldeia, esfomeada, deixou de soar daquela maneira. Em que o sol que outrora espreitava por detrás da serra, deixou de tocar os lameiros verdejantes ladeados pelos muros de pedra, que os nossos ansiãos, pacientemente ,colocaram uma após outra. Houve um dia, em que as pessoas da nossa meninice, envelheceram e caíram, como as folhas desse outono que agora inicia, caiem das árvores. A nossa aldeia é uma árvore. Agora está despida. Os meninos de outrora cresceram e partiram e na rua, agora, já não os há. E não sei se brotarão mais folhas um dia...

Vendi-te a ti, para nunca perdê-la de mim

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A alma que tantas vezes prometi ao céu... Vendi a alma que tantas vezes prometi ao céu. Vendi-a em troca do seu amor, do seu brilho,  daquela magia que faz os corações suspirar. Vendi a alma, porque era a única forma de te ter. Vendi-a em troca de sonhos,  de esperança,  daquele esvoaçar que nos faz viajar tantas e tantas vezes sem sair do mesmo lugar... Vendi a alma porque era a única forma de não a perder... De te ter e a ela ... Vendi a alma em troca do meu respirar, do teu olhar  e de toda a vida que há no mundo! Vendi-te a ti,  para nunca perdê-la de mim....

Neons e Azinheiras

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 Não acredito em nada.  Ensinaram-me tanto sobre Deus e os Deuses. Neons e Azinheiras. Puta que pariu mais o tempo que perdi nesses antros de lavagem cerebral , onde até as batinas parecem coletes sem braços para as (sem)forças espirituais. Vejo as pessoas perecerem perante a doença, vejo as mesmas crianças de toda a vida a serem abusadas , como já eram no tempo da inquisição. Acendam a fogueira e deixem-nos arder a todos. Não há ponta por onde pegar? Comecem pela cruz!

Foi nos teus Olhos!

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Foi nos teus olhos que eu me vi, Foi na vida e no brilho e no ar que respirei Foi nos teus olhos que eu fui eu Muito mais vezes do que tinha sido até então. Foi nos teus olhos que eu nasci Tantas vezes que já nem sei Se o ar me faltou ou se me perdeu Para sempre num caminho sem razão. Foi nos teus olhos, Que te abracei para sempre o coração, Ás vezes mais forte do que te envolvi Nos meus braços, Foi nos teus olhos que te disse sim Muito mais vezes do que o custoso não E neles vi muito mais princípio Do que algum dia verei fim…

Ninguém me viu

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Ninguém me viu quando rasguei o céu dos meus olhos e de lá brotaram dois oceanos. Ninguém me viu sair de madrugada, com o peito apertado pela saudade dos teus braços e cambaleante pela falta dos teus olhos. Ninguém. Nem os homens que regressavam a caso dos bares, ébrios, pelo contagiante líquido do interior de garrafas de vidro cor de sangue, nem os senhores fluorescentes que com jactos enormes de água empurravam resquícios de vida e de alma por cada frincha de sarjeta… Ninguém. Ninguém me viu, nem me vê. Nem quando me passam por cima, nem quando me espezinham a roupa gasta que me cobre este corpo vagabundo e cansado. Ninguém. Ninguém me viu.