Ninguém me viu
Ninguém me viu quando rasguei o céu dos meus olhos e de lá
brotaram dois oceanos. Ninguém me viu sair de madrugada, com o peito apertado
pela saudade dos teus braços e cambaleante pela falta dos teus olhos.
Ninguém.
Nem os homens que regressavam a caso dos bares, ébrios, pelo
contagiante líquido do interior de garrafas de vidro cor de sangue, nem os
senhores fluorescentes que com jactos enormes de água empurravam resquícios de vida
e de alma por cada frincha de sarjeta…
Ninguém.
Ninguém me viu, nem me vê.
Nem quando me passam por cima, nem quando me espezinham a roupa gasta que me cobre este corpo vagabundo e cansado.
Ninguém.
Ninguém me viu.
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