NO BAÚ...
Sabes,
Olhei-te tantas vezes de longe sem que me visses.
Envergonhado nunca cheguei perto. Para mim bastava estar àquela distância e
ver-te.
Escrevi-te tantas vezes para a morada de um baú sem fundo
onde ainda jazem esses manuscritos intermináveis. Era a minha a forma de te
sonhar, de pensar que um dia, eu e tu poderíamos ser reais.
Mas nunca fomos. Eu e tu apenas existiram na minha cabeça e
nas folhas desse papel barato e manchado por aquela chávena de café, que um dia
tombou numa madrugada gelada, quando se me bloquearam os nervos e os ossos de
ambas as mãos.
Agora quando penso em ti, já não há papel nem café nem
pensamento que me valha.
O sonho já foi. Nesse
baú que expulsei assim que pude da cave de minha casa!

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